O curandeiro globalizado

A vida de João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus - ou John of God -, o cirurgião espiritual de Goiás que é mais famoso fora que dentro do Brasil

Marcelo Zorzanelli (texto) e Ricardo B. Labastier (fotos), de Abadiânia, GO

CELEBRIDADE
João de Deus, na casa onde atende milhares de pacientes por ano. A maioria são estrangeiros

São 5 da tarde na cidade de Abadiânia, interior de Goiás, a 115 quilômetros de Brasília. O cheiro dos tijolos cozidos na pequena olaria passeia pelo ar de agosto, um dos mais secos do ano no Cerrado. A poeira vermelha não adere ao chão e se espalha sobre telhados, paredes e ruas. As poucas árvores são retorcidas e nanicas, nada imponentes sobre a grama desidratada. Do outro lado da rua, um complexo de prédios conhecido como Casa de Dom Inácio de Loyola se destaca na paisagem poeirenta pela impecável limpeza. O pó não se assenta porque todas as quartas, quintas e sextas-feiras, no fim da tarde, litros de água são despejados por todos os lados, enquanto homens e mulheres vestidos de branco empurram vigorosamente rodos no chão de cimento batido.

O furioso mutirão de limpeza é o último ritual de um dia comum na “Casa”, como é conhecido o lugar. Encerra um expediente que começa às 8 da manhã e que atrai 800 pessoas a Abadiânia. Na maioria estrangeiros, eles vêm em busca das cirurgias espirituais, visíveis e invisíveis, efetuadas por um fazendeiro conhecido como João de Deus, o mesmo epíteto que o papa João Paulo II recebeu em sua primeira visita ao Brasil, em 1980. Neste caso, o João que atrai multidões – diz já ter atendido 10 milhões de pessoas, o que exigiria receber mais de 500 por dia, todos os dias, durante 50 anos – se chama João Texeira de Faria. Já foi tema de uma reportagem da TV americana ABC, em 2005, e é o protagonista de um documentário do canal Discovery, a ser exibido internacionalmente (no Brasil, vai ao ar nos dias 25 e 29 de agosto, às 22 horas).

João estremece, como se uma corrente elétrica passasse pelo corpo. Diz que agora está ali o “doutor José Valdivino”

Na internet, há uma profusão de sites em que pacientes relatam curas milagrosas. Na Casa, um cômodo abarrotado de ex-votos oferecidos por pessoas que se dizem curadas – muletas, braços e pernas de cera, cadeiras de rodas, óculos, reproduções de arcadas dentárias e uma coleção de tecidos humanos conservados em formol – é um testemunho da multidão que já foi atendida ali. João de Deus chega à Casa cedo, por volta das 7h30 da manhã, e senta-se num sofá do pequeno escritório anexo aos salões principais. Nas paredes, imagens de santos, retratos de gente atendida por ele, uma foto sua ao lado do médium mineiro Chico Xavier, diplomas de honra ao mérito emitidos por associações militares, entidades policiais e Câmaras de Vereadores. As paredes brancas com rodapé azul de 1 metro de altura, onipresentes na Casa, formam um corredor claustrofóbico que leva ao salão principal, onde cerca de 300 pessoas de todas as idades estão sentadas, de olhos fechados e em silêncio.

SOB RECEITA
João de Deus prescreve, em grande parte dos atendimentos, um preparado à base de raízes e ervas, vendido na Casa por R$ 10 o pote

João não ergue a vista para quem o espera. Ele está descalço e navega em passos incertos até uma cadeira de espaldar alto. A seu redor, uma dúzia de buquês de flores frescas, estátuas de santos e uma pedra de quartzo que serve de gruta para uma Pietà. Ele chama dois de seus assistentes e dá uma mão a cada um. Estremece, revira os olhos, sacode os ombros e retesa os braços, que deixa cair, como se uma corrente elétrica passasse por seu corpo. Ele se recompõe. Até as 5 da tarde, estará em transe, atendendo as centenas de pessoas que formam uma fila em frente a sua cadeira. Seu ar normalmente contrito dá lugar a movimentos amplos dos braços e uma genuína hiperatividade. De acordo com ele, quem está ali agora é o “doutor José Valdivino”, uma das 30 entidades que João afirma usar seu corpo como “aparelho” – designação da literatura espírita – para curar pessoas. Entre as supostas entidades estão figuras históricas como o sanitarista Oswaldo Cruz, Santo Inácio de Loyola e Santa Rita de Cássia.

Entre os que o procuram estão pacientes de câncer, esclerose, paralisia cerebral, bócio, nódulos mamários, cefaléia, vertigem, dor abdominal, lombalgia, problemas oculares, aids. João diz não prometer curas, que segundo ele dependem “da vontade de Deus”. Na ante-sala onde se forma a fila, são exibidos vídeos com testemunhos de curas milagrosas. Uma equipe de auxiliares informa os que esperam atendimento quanto aos primeiros passos: vestir-se de branco para “facilitar o acesso à aura”, que tipo de comida evitar. Em seguida, vão todos para a fila. Uma jovem americana, de olhos fechados, medita com uma foto do presidente George W. Bush nas mãos. “Concentrem-se nas suas doenças,” diz uma auxiliar de João. “Os espíritos estão examinando vocês, e farão um relatório para facilitar o atendimento.”

A CIRURGIA
O médium raspa a córnea de um paciente com uma faca de mesa, sem assepsia nem anestesia. O doente não sente dor

As cirurgias podem ser “visíveis” ou não, de acordo com a vontade do paciente. Nas visíveis, os procedimentos mais comuns são a introdução de uma pinça cirúrgica no nariz, a raspagem da retina ou a retirada de tumores com bisturi. Às vezes, João faz simples massagens na região onde o paciente reclama de dor. O médium pergunta, imperativo: “Cadê a dor?” Todos dizem não sentir mais nada. Em alguns casos, ele ordena a pessoas em cadeiras de rodas ou muletas que as abandonem e andem. Em todos os casos presenciados pela reportagem de ÉPOCA, os pacientes saíram claudicando com muita dificuldade. Quando há cortes, ele costura a ferida com agulha e linha, e o paciente vai para uma sala de repouso. Se há sangue no chão, os auxiliares se apressam em limpá-lo com álcool de cozinha. Os instrumentos cirúrgicos não são limpos entre uma operação e outra.

Uma consulta sem cirurgia é mais rápida. João rabisca um papel, que é seu “receituário”, um garrancho ilegível. Seus auxiliares o traduzem. A prescrição é sempre o mesmo preparado de raízes e ervas ou um apontamento para uma cirurgia posterior. Quem passou por uma cirurgia espiritual é orientado a ficar 24 horas em repouso. A Casa também pede que não se interrompa o tratamento médico. A maioria das pessoas em busca de cura acaba ficando mais que uma semana em Abadiânia, a pedido das “entidades”. Ela também é incitada a permanecer na Casa durante vários dias, para uma “corrente de meditação”.

LONGA VIAGEM
O casal Alice e Walter Reschl, da Áustria, levou o filho mais velho a Abadiânia para tratar de uma distrofia muscular

Em uma das paredes da Casa há uma reprodução de um estudo publicado em 2000 na Revista da Associação Médica Brasileira. O trabalho é, supostamente, uma tentativa de investigar cientificamente as cirurgias espirituais de João de Deus. Um de seus autores, Alexander Moreira de Almeida, hoje é professor de Psiquiatria na Universidade Federal de Juiz de Fora. Ele já escreveu artigos em outras publicações com títulos como “Visões espíritas dos distúrbios mentais no Brasil” e “A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental”. O estudo de 2000 não chegou a conclusão nenhuma. Uma das co-autoras, Maria Ângela Gollner, se diz constrangida pelo uso do artigo. “Ele fez daquilo uma máquina de propaganda”, disse, referindo-se a João de Deus. Ouvido por ÉPOCA, Almeida não quis revelar sua crença religiosa e disse ignorar que o artigo esteja afixado na Casa Dom Inácio.

Dez cirurgias de João de Deus foram acompanhadas, mas apenas seis pacientes foram entrevistados e quatro foram localizados seis meses depois da cirurgia – em nenhum caso foi obtido o histórico médico dos pacientes. Esse artigo inconclusivo, porém, costuma ser usado como uma espécie de “respaldo científico” para o trabalho de João de Deus. Outro argumento são entrevistas de médicos americanos. Mehmet Oz, um cirurgião conhecido nos Estados Unidos – colabora com o programa de Oprah Winfrey –, se disse impressionado com as imagens das cirurgias. “Eu gostaria de ter o tipo de treinamento que permite a ele transformar s o próprio corpo num mecanismo de cura”, disse à TV americana ABC.

 

 

O poder da fé

Reportagem de Época conversou com dezenas de pessoas que procuravam tratamento na casa de Dom Inácio, Abadiânia, Goiás. Selecionamos as melhores histórias:

Alice Gabriel e família
“Os médicos disseram que meu filho não viveria muito”, diz a austríaca Alice Gabriel enquanto observava seus dois filhos montando um quebra-cabeças sobre um banco rústico, doação identificada apenas pela placa com o nome “Jerry”. A frase é dela, mas poderia ter sido colhida em entrevistas com qualquer uma destas mulheres de meia-idade que acompanham os filhos na Casa de Dom Inácio. A história é quase sempre a mesma. Médicos esgotaram as possibilidades de tratamento e desenganaram as crianças. Julian, o filho de Alice, tem 13 anos e vive preso à uma cadeira de rodas devido a um caso severo de distrofia muscular. Alice e o marido, Walter Reschl, viram João de Deus na Alemanha há dois anos. Já haviam levado o filho a curandeiros na Inglaterra e Itália, sem resultado. Vieram direto para Abadiânia em 2006 e ficaram um ano. “Em poucas semanas, a doença se estabilizou,” diz Alice. Segundo ela, Abadiânia trouxe para toda a família uma profunda noção da própria espiritualidade e ajudou a suportar as dificuldades. “Ele agora está feliz,” diz a mãe.
 

Helen Andonopouloy
Helen Andonopouloy, uma contadora da cidade de Kavala, na Grécia, veio até Abadiânia pedir a cura de seu filho Marios, de 16 meses. O bebê tem uma rara condição clínica que não permite que se alimente pela boca. Ele se alimenta através de um tubo ligado diretamente ao estômago. "Mandamos os raios-x para a Holanda, e os médicos não acreditaram que ele podia andar, rir, brincar e até falar," diz Helen. Marios passou quatro meses no hospital e, segundo sua mãe, já ficou para morrer cinco vezes. "Os médicos me disseram para esquecer". Uma amiga escocesa contou sobre João de Deus. Ela não teve dúvidas. Pegou uma fotografia do filho e embarcou para Abadiânia. Como todos as pessoas que vem até João pedir a cura de pessoas distantes, foi instruída a escrever, nas costas da fotografia, o nome do paciente, sua data de nascimento, endereço, qual a doença e exatamente que melhoras se espera conseguir.

Orozimbo Moreira
Orozimbo Moreira do Vale, um paraense de 69 anos, viajou da cidade de Sapucaia até a Casa procurando tratamento para a hérnia e a catarata que o impedem de trabalhar. Paga os R$ 20 de aluguel com um dinheiro que recebeu do governo há algum tempo, que aliás já está acabando. Ele morava em Abadiânia quando João começou a atender na Casa. “Era muito menor. Agora já está tudo muito preenchido,” diz ele na voz áspera de quem enfrentou a poeira da estrada. Pedindo licença, ele jogou nas costas um saco de estopa que é sua mala e retornou à fila de uma sopa nutritiva que é servida gratuitamente na Casa.

Ruzica Wiesen
“O povo acha que a cura aqui é da matéria, mas para mim a cura é do espírito,” diz João de Deus. Ruzica Wiesen, nascida na Iugoslávia e naturalizada americana, conta que foi diagnosticada com esclerose múltipla há 19 anos. Apesar de levar uma vida saudável como professora de ioga em Chicago, ela viu sua vida desmoronar quando perdeu a capacidade de andar sem a ajuda de muletas. “Descobri que os problemas são espirituais”. Desde que passou a frenquentar a casa, há três anos, ela diz ter voltado a andar. “Eu tenho fé que foram os espíritos que me ajudaram. Isso basta”.

Dimitri Kovarosky
Dimitri Kovarosky, russo radicado em Nova Iorque, EUA, não tem qualquer doença rara que tenha sido desenganada pela medicina. Ele, que se julga um cético, ouviu falar de João de Deus através de amigos que assistiram a uma palestra do médium na Califórnia. “Vim para cá sem expectativas, mais para acompanhar uma amiga que está treinando para se tornar médium,” disse. “Mas sinto uma mudança sutil em mim depois de falar com as entidades.”

Phoebe Dixon
A jovem Phoebe Dixon veio acompanhar a professora de psicologia da faculdade, que tem câncer de fígado. “Assim que ouvi que havia algo assim no mundo, resolvi conferir com meus próprios olhos,” disse a australiana de 20 anos, os olhos faiscando de curiosidade. “O ganho material acabou. O mundo alcançou seu limite. O que atrai tanta gente a lugares como este é o desenvolvimento espiritual. Muitas doenças vêm da alma,” afirmou a estudante australiana.

Ultan O'Meara
Ultan O’Meara, um irlandês de modos ligeiros, diz que era consumido por uma inquietação no ano 2000, assim que se formou como engenheiro eletrônico. Queria ajuda espiritual para vencer a inércia e descobrir o que fazer da vida. Veio para Abadiânia depois de ler o livro “The Miracle Man”, sobre João de Deus. Gostou tanto que foi ficando. Casou com uma brasileira e hoje administra o point mais movimentado de Abadiânia: um restaurante vegetariano decorado à moda dos lugares mais descolados das capitais brasileiras, com plaquetas envelhecidas retratando xícaras de café fumegante, um colorido cartaz com o nome de sucos, alegres revezamentos de nossas frutas típicas e outras mais bem conhecidas. Esta decoração faz lembrar as pequenas vilas mais infladas de turistas do nosso litoral, como Trancoso ou Caraíbas. Tomar um café ali é como assistir distraído à missa do Galo: sempre sobra uma palavrinha para cada idioma. Ultan, o mentor de tudo isto, é casado com uma brasileira e tem duas filhas. Se encontrou o que procurava? “Acho que sim,” afirma.