Eles são espíritas

A tradição espírita no Brasil se renova com a adesão de jovens celebridades como Fábio Assunção, Caio Blat e Scheila Carvalho

 

Juliana Lopes

No Brasil, há cerca de quatro milhões de espíritas, ou 2% da população. Desse total, 46% têm até 29 anos. Os católicos são 83% dos brasileiros

Priscila Borgovoni e Fábio Assunção casaram-se numa cerimônia espírita no sábado 20 em São Paulo. Na celebração, uma médium abençoou o casal, que não trocou um beijo no altar

Das 300 pessoas que presenciaram o casamento do ator Fábio Assunção, 30 anos, com a produtora Priscila Borgonovi, 23, no Jockey Clube de São Paulo, sábado 20, uma delas foi escolhida pelo casal para discursar sobre a importância da família, da fidelidade e do amor. Eliana Luiz dos Santos, 47 anos, presidente e fundadora da Casa Oração Fé e Amor, centro espírita freqüentado pelo ator da Globo, foi a médium da cerimônia que celebrou a união do casal. Mãe da cantora Ana Ariel, esposa do ator Caio Blat, Eliana leu a passagem “lei do amor” de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Depois, leu o terceiro capítulo dos “Cantares de Salomão”, da Bíblia Sagrada, e em seguida pediu a proteção dos anjos para o casal. Ana Ariel cantou “Haja o que houver”, do grupo português Madredeus e Ave Maria. Emocionado, Fábio chorou. “Pedimos proteção aos anjos e aos espíritos. Para que seja abençoado essa nova caminhada de cada um ao lado de uma nova pessoa”, diz Eliana.

Elba Ramalho
Militante do espiritismo, a cantora freqüenta o Lar de Frei Luís, no Rio, e se iniciou na leitura da doutrina há dez anos. “Tenho procurado viver bem para morrer bem. Quem sabe um dia eu não acordo num outro mundo olhando para um anjo bem bonito?”
Estima-se que haja cerca de oito mil centros espíritas no País
 
Ana Rosa
Com a ajuda do espiritismo, a atriz superou a perda de dois filhos. Ela também fez duas novelas com temática espírita e, por causa disso, conheceu o médium Chico Xavier. “Muita gente vê a morte como punição, mas não é. Senão todo mundo estaria pagando por alguma coisa, porque todos vamos morrer um dia”, diz ela
Paulo e
Nicette Bruno
O casal conheceu a religião espírita há 40 anos, com a morte de um tio de Nicette. A religião, que eles transmitiram aos três filhos, os ajudou a superar a perda. “O Espiritismo me trouxe um comportamento coerente”, diz o ator

Fábio e Priscila não se beijaram ao final da cerimônia. Também não fizeram juramentos, como em casamentos católicos. Espíritas, abraçaram-se e passaram a cumprimentar “as pessoas carinhosas que irão acompanhar a vida do casal”, que no catolicismo seriam chamadas de padrinhos. Entre eles, a atriz Adriana Esteves e o ator Marco Ricca. “Não há casamento espírita”, explica Evandro Noleto Bezerra, secretário da Federação Espírita Brasileira. “Alguns casais costumam se casar no civil e depois promovem uma exposição sobre valores como amor e fidelidade.”

O casal é mais um exemplo da popularidade crescente do espiritismo no Brasil, que atrai sobretudo a classe média e a juventude. E cada vez mais atrai jovens celebridades. Entre aqueles que se declaram espíritas, 46% têm até 29 anos. De acordo com o antropólogo Emerson Giumbelli, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2000 indica que 2% da população brasileira é espírita. Oficialmente, é um contingente de 4 milhões de pessoas, bem superior ao 1,6 milhão de 1991, mas ainda distante da população católica (83%) e dos evangélicos (12%). Especialistas, porém, acreditam que os espíritas formam um rebanho maior do que revelam os números, se incluir os não declarados. Para a antropóloga Céres de Carvalho Medina, da PUC de São Paulo, autora da tese Antropologia e Religião, o número de espíritas no Brasil está próximo a 12 milhões.

Lógica do espiritismo Assim como Fábio Assunção e Priscila Borgonovi, Caio Blat, 21 anos, e Ana Ariel, 19, também celebraram sua união seguindo os preceitos espíritas. Representante da terceira geração de uma família kardecista, Ana aproximou Caio da doutrina na qual foi criada. “Fui arrebatado pela lógica do espiritismo porque ele mostra a grandiosidade da Justiça Divina. É o que melhor explica de onde viemos e para onde vamos”, diz ele. Ana Ariel já gravou dois discos com músicas espíritas e cantou na festa de 90 anos de Chico Xavier, o médium mais famoso do Brasil, em 2000, em São Paulo. Às sextas-feiras, o casal participa de encontros realizados na Casa do Espírito Amigo, centro mantido há 12 anos em Campinas pela mãe de Ana, Eliana dos Santos.

A doutrina espírita existe desde 1857, quando O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, foi publicado em Paris. Kardec era um educador que trabalhava no Ministério da Educação, na França. “Ele não era espírita e não acreditava em nada, mas de tanto ler nos jornais notícias de manifestações de espíritos, passou a estudar o assunto”, conta a antropóloga Céres Medina, da PUC-SP. Kardec fez uma pesquisa detalhada em torno de um médium com todos os cuidados para evitar fraudes. “Ele fez mais de mil perguntas e comparou as respostas com as obtidas por outros pesquisadores da época. As respostas, coincidentes, estão em O Livro dos Espíritos.” A doutrina baseia-se nos seguintes preceitos: acreditar na existência do espírito, na reencarnação e na possibilidade de comunicação entre mortos e vivos. Para os espíritas, diferente dos católicos, Jesus Cristo foi um homem comum. Mas que, após passar por várias encarnações, chegou à última como um espírito elevado. “O espírita não pede ajuda aos santos, mas aos espíritos evoluídos”, explica Céres.

Foi o que aconteceu no nascimento da dançarina Scheila Carvalho, 28 anos, do grupo É o Tchan!. Sua mãe, Eunice Ladeira, ia batizá-la de Sandra. Na hora do parto, sofrendo complicações, pensou numa entidade que chamava de irmã Sheila. “Fui cuspida”, conta a dançarina. Eunice confirma: “Ela estava virada ao contrário, fiz um trabalho espiritual e ela saiu na hora”. Aos 10 anos, Scheila passou a freqüentar centros espíritas em Juiz de Fora, onde nasceu. Leu vários livros sobre o kardecismo e devorou a coleção da médium Zibia Gaspareto.

A história que mais mexeu com a espiritualidade de Scheila aconteceu um mês depois de seu pai morrer. Ela fazia 23 anos e a data só foi celebrada com uma reunião em família. Na hora de partir o bolo, sua mãe disse: “Só faltava seu pai aqui para te dar os parabéns”. Na mesma noite, Scheila sonhou que dormia em seu quarto e, ao levantar para ir ao banheiro, encontrou o pai, Waltencyr. “Quem disse que eu ia me esquecer do seu aniversário?”, disse-lhe, no sonho. “E ele estava de braços abertos”, conta Scheila, emocionada. “Nos abraçamos e em seguida senti um tremor e acordei chorando. Acredito que aquilo não foi só um sonho, foi um reencontro.”

A ex-jogadora de basquete Maria Paula Gonçalves, a Magic Paula, também viveu uma experiência marcante. Crê ter tido um reencontro com o pai, morto por um câncer há quatro anos. “Fazia uma sessão de reiki (energização com as mãos), quando a pessoa disse que estava se sentindo mal e precisava sair da sala. Ao voltar, a senhora trouxe em mãos uma carta do meu pai, psicografada por ela”, conta Paula, com lágrimas nos olhos. A mulher, segundo Paula, não conhecia ninguém da família dela, muito menos as particularidades do seu pai descritas na carta. “Sofri muito pelo meu ateísmo. Quanto tempo eu perdi por não conhecer Deus!”, dizia o pai, que era ateu. Na carta, também pedia desculpas por não ter afagado a filha o bastante. “A carta é ele. Ele era uma pessoa fechada. E aquilo veio até mim sem eu procurar, foi uma comunicação. Se estivessem escritas coisas como ‘aqui é lindo, cheio de flores’, eu não iria acreditar”, diz ela.

O jogador de vôlei Alexandre Samuel, o Tande, 32 anos, espírita desde a infância, perdeu a mãe no início deste mês e encontrou conforto na religião. “Nada é por acaso, tudo tem sua hora”, diz ele. Casado com a atriz Lizandra Souto e pai de Yasmim, de dois anos e meio, Tande freqüenta com toda a família um centro espírita às quintas-feiras. Em casa, repete um hábito que seu pai, o médico Alexandre Ramos Samuel, introduziu quando Tande tinha sete anos. Sempre que a agenda permite, o atleta reúne a esposa e a filha e senta com elas ao redor de uma mesa com uma jarra com água fluidificada (energizada pelos espíritos) ao centro, ao lado do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Após darem às mãos, pedem proteção, lêem e debatem uma passagem do livro. “A doutrina espírita ensina que já é hora das pessoas procurarem evoluir para algo além dos objetivos materiais”, diz ele.

Espírita militante A cantora Elba Ramalho, 50 anos, foi criada dentro dos preceitos católicos, mas sua curiosidade a levou a pesquisar outras “formas de se chegar a Deus”. Ela diz que encontrou coerência na doutrina de Allan Kardec. Há 10 anos, ela se iniciou na literatura espírita e leu mais de 20 livros de Chico Xavier, que ela conheceu há três anos e que psicografa a entidade Emmanuel. Estudar a doutrina, aliás, faz parte da religião. Essa é uma das explicações para o espiritismo ser popular na classe média: dados de 1995 indicam que 32% dos espíritas completaram o ensino médio e 25% cursaram universidade. “A discussão espírita exige um mínimo de senso crítico e sutileza”, diz o antropólogo Emerson Giumbelli.

Militante do espiritismo, Elba é freqüentadora assídua do Educandário Social Lar de Frei Luiz, em Jacarepaguá, no Rio. Lá aprendeu que a morte é uma ponte para a eternidade. Isso, ela garante, melhorou sua qualidade de vida. “Tenho procurado viver bem para morrer bem. Quem sabe um dia eu não acordo num outro mundo olhando para um anjo bem bonito?”, pergunta a cantora. Fundadora do selo Ramax, Elba, além de lançar bandas de rock e forró, também apostou no segmento espírita, com músicas de grupos que pregam paz e união.

Existem cerca de oito mil centros de espiritismo no País, segundo estimativas da Federação Espírita Brasileira. Lá, os seguidores da religião se reúnem, rezam, ouvem ensinamentos e dão passe. O passe, segundo Evantro Noleto Bezerra, 2º secretário da Federação, é uma transfusão de energia e funciona como uma medicação homeopática. “O espírita tem de acreditar que a energia irá reequilibrar seu organismo e acabar com suas angústias”, diz ele. É importante, também, marcar as diferenças em relação à umbanda, outra religião que crê em reencarnação. Diferentemente dos espíritas, os fiéis da umbanda acreditam em rituais. Na opinião de Giumbelli, a falta de informação é o maior empecilho para o crescimento do espiritismo. “As pessoas ainda têm uma visão estereotipada sobre o assunto, associam a doutrina a casas mal assombradas e fantasmas.”

O veterano casal de atores Paulo e Nicette Bruno abraçou o espiritismo há 40 anos, após a morte de um tio da atriz. “Procuramos um centro para lidar melhor com esta perda”, conta Paulo. Segundo ele, os ensinamentos, transmitidos aos três filhos, deram-lhe mais, uma receita de vida. “A busca do equilíbrio dentro das incoerências do mundo.” Foi também na dor que a atriz Ana Rosa, 59 anos, teve seu primeiro contato com o espiritismo. Em 1962, a atriz perdeu seu primeiro filho, Maurício, de leucemia, com um ano de idade. Na época, a tristeza e a revolta pela perda prematura foram amenizadas por um presente do diretor Augusto César Vanucci, que lhe deu o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. “O livro respondeu um pouco as questões que fazia na época. Não entendia por que aquilo tinha acontecido comigo, mas de certa forma me acalmei com a leitura”, lembra Ana.

Por falta de tempo, a atriz não se aprofundou nos estudos da doutrina até 1976, quando uma série de coincidências a aproximaram do espiritismo. Primeiro, fez o papel de uma médium na primeira versão da novela A Viagem, de Ivani Ribeiro, exibida pela extinta TV Tupi. Em conseqüência disso, visitou Chico Xavier em Uberaba. Um ano depois, atuou em O Profeta, outra novela de Ivani Ribeiro que abordou o tema. Na ocasião, Carlos Augusto Strazzer, que protagonizava a novela, indicou o Lar da Mãe Mariana, em São Paulo, que ela passou a freqüentar com o marido. Morando hoje no Rio, Ana vai a reuniões semanais na Seara Fraterna, e estuda a filosofia criada por Kardec. “Me propus a transformar meus pontos negativos. Hoje não só estou menos ansiosa, como procuro não criticar ou falar mal dos outros, mas ajudar no que puder”, diz.

Em 1995, Ana Rosa passou por outra prova. Ana Luíza, sua filha então com 18 anos, morreu atropelada. Dessa vez, a dor que a fez procurar uma terapia e se esconder para não chorar na frente dos filhos não veio acompanhada da revolta. “Muita gente vê a morte como punição, mas não é. Senão todo mundo estaria pagando por alguma coisa, porque todos vamos morrer um dia”, afirma. Um mês após o acidente, a atriz conta que sentiu a presença da filha durante uma sessão espírita. No mesmo dia, Ana viu o mural de fotos da filha em casa com uma sensação diferente da perda. “Vi que ainda tinha uma responsabilidade como mãe, porque minha filha estava viva em algum lugar, e não deveria me entregar à dor.” Mãe de outros seis filhos, quatro adotivos, Ana Rosa planeja agora levar para o cinema a peça Violetas na Janela – a história que a amiga Vera Lúcia Marinzeck psicografou de uma sobrinha que morreu aos 19 anos e que fez sucesso no Brasil entre 1997 e 2000, e em que Ana atuou e dirigiu. “É uma mensagem positiva, um relato de como é a vida no plano espiritual”, diz a atriz. O que provavelmente atrairá mais jovens para o espiritismo.

Eduardo Minc, Juliana Lopes, Luis Edmundo Araújo e Rodrigo Cardoso

Tande aceitou a morte da mãe
O jogador em oração com a mulher Lizandra Souto e a filha Yasmim: “Nada é por acaso”. diz Tande

No início do mês, Alexandre Samuel, o Tande, 32 anos, perdeu a mãe, Maise, vítima de um tumor no cérebro. Ao invés de entrar em desespero, o campeão de vôlei de quadra nos jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, encontrou consolo no espiritismo kardecista, que pratica desde a infância. “Acho que nada é por acaso e tudo tem a sua hora”, disse o resignado atleta. Ele conta que, mesmo desenganada, depois de ter sido operada pelo neurologista Paulo Niemeyer, a família apelou para cirurgias espíritas. Chegaram a chamar um médium amigo da família, que foi até o quarto onde ela estava internada, recebeu uma entidade e fez uma cirurgia espiritual. “Ele nos disse que ela desencarnaria, mas deixou o ambiente equilibrado para que a passagem acontecesse sem traumas”, diz o atleta.

Tande também acha curioso o fato que sua mãe, que havia ficado descrente durante o processo da doença, tenha mudado seu comportamento nos últimos dias de vida. “Ela ficou mais dócil e passou a ver entidades espirituais vagando pelo quarto”, afirmou. Embora esteja sofrendo, o jogador acredita que sua mãe está bem neste momento. “Baseado nos meus humildes conhecimentos, acho que ela está se reestabelecendo num dos hospitais que existem em outros planos”, diz Tande. Ele está lendo no momento o livro Cidade do Além, que explica para onde os espíritos vão após a morte do corpo físico.

 

Scheila Carvalho e a mãe
A dançarina, que se chamaria Sandra, ganhou o nome de Scheila em homenagem a um espírito invocado por sua mãe, Eunice, na hora do parto, que tinha complicações, mas terminou bem. Scheila iniciou-se na doutrina aos dez anos e guarda como momento mais marcante de sua fé um encontro com seu pai, já morto, há
cinco anos

‘‘Abracei meu pai, em seguida senti um tremor e acordei chorando. Não foi um sonho, foi um reencontro’’ Scheila Carvalho, cujo pai morreu há cinco anos, narra experiência vivida quando completou 23 anos

 

A cirurgia espírita de Paula
Ela crê no espiritismo há 20 anos
Maria Paula Gonçalves, a Magic Paula, 40 anos, ex-jogadora de basquete, descobriu a religião espírita na dor. “Fui procurar o espiritismo no desespero, há 20 anos. Estava com um problema muito sério no joelho esquerdo, mas não queria operar porque sabia de muito atletas que fizeram cirurgia e jamais voltaram a jogar normalmente.” Seguindo sugestão de uma colega fisioterapeuta, Paula foi até um santuário em Leme (SP) e fez uma cirurgia espírita. “Não conhecia nada de espiritismo, achei que fosse ver pessoas caindo no chão, estava com medo”, diz. Mas, na hora, encontrou tranqüilidade, luzes apagadas e teve seu joelho curado. “Sentia as dores físicas da recuperação, não podia nem dirigir”, comenta. Os médicos com quem se consultou, ela conta, disseram que Paula tinha “problemas na cabeça” por estar se submetendo àquilo.
Ao invés de freqüentar centros espíritas, atualmente Paula prefere fazer suas sessões de relaxamento e oração sozinha. “As pessoas procuram essa religião porque é o momento de achar o teu ser, coisa que não acontece com a igreja católica que nos coloca sermões que não têm nada a ver com a nossa vida”, opina. Para recarregar as energias e concentrar-se em sua própria espiritualidade, Paula costuma ficar sozinha no escuro, ouvindo uma música tranqüila e mentalizando coisas boas.