PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

Começa em nossa casa Célio Luís Franco de Almeida  e
Antônio Barbosa Pereira
Revista CREA-SP  n°6  set/out 2002  página 30   www.creasp.org

"A terra abriga a vida, a vida protege a terra", reflexão fundamental para a reciclagem da postura do ser humano em relação aos seus hábitos diários.

Biodecompositor doméstico

Entre os resíduos sólidos que produzimos em nossas residências os mais problemáticos são os orgânicos, pois exalam cheiro desagradável quando entram na fase de decomposição, atraindo alguns tipos de insetos, além de representar maior quantidade e peso do que os diversos resíduos sólidos inorgânicos domésticos, como vidros, metais, papéis e plásticos.

Da mesma maneira que existem embalagens coloridas para receptar os resíduos sólidos inorgânicos - verde para vidros, amarelo para metais, azul para papéis e vermelho para plásticos - desenvolvemos uma embalagem padronizada, na cor marrom, que além de receptar, também recicla a matéria orgânica. Assim nasceu o Biodecompositor Doméstico - Biolar.

Depois de alguns anos desenvolvendo e aperfeiçoando este equipamento, de tecnologia simples e barata, constatamos que ele abrange totalmente a campanha dos 3R's: Reduzir, Reutilizar e Reciclar, sem esquecermos do quarto R, o Repensar, ou seja, pensar três vezes na nossa posição em relação à problemática dos resíduos urbanos.
Nesta ordem, a primeira atitude seria a tentativa de Reduzir a quantidade de resíduos que levamos para a nossa casa.
Trataríamos, também, da diminuição da quantidade de material a ser enviado aos aterros sanitários, diminuindo, conseqüentemente, o tempo entre as coletas realizadas pelos órgãos responsáveis. A segunda atitude seria a de Reutilizar, pois todos os componentes do Biolar são de material de descarte industrial e doméstico. Por último vem o Reciclar transformando todo material orgânico, que iria para os aterros sanitários, em matéria prima para um novo produto biossólido ou em adubo composto orgânico, praticamente com custo zero.

 

CARACTERÍSTICAS, PROCEDIMENTOS E PRINCIPAIS VANTAGENS DO BIODECOMPOSITOR DOMÉSTICO

Os biodecompositores podem ser adaptados nas capacidades de 50, 100 e, 200 litros, reutilizando embalagens de plástico ou de metal, oriundos de descartes industriais, tais quais baldes de requeijão para as tampas, embalagens dos produtos semelhantes ao dos limpadores multiuso para as válvulas de respiro e tela de mosquiteiro em desuso para as telinhas. São necessários apenas esses simples componentes para o funcionamento do biodecompositor.

Devem ser instalados em solos descobertos (enterrados cerca de 15 cm), em ambientes abertos e com bastante exposição ao sol.

Mantendo as válvulas de respiro desentupidas e seguindo as orientações de instalação, não causam mau cheiro ao ambiente externo onde estiver colocado, conseqüentemente, também não atrai nenhum tipo de inseto.
Dentro de um biodecompositor podem ser colocados restos de comida, alimentos estragados, cascas de frutas, legumes e ovos, sementes, pó de café com o papel filtro, vísceras e ossos de frangos e peixes, folhas de verduras e legumes, fezes de cães, gatos e aves, cinzas e filtros de cigarros, entre outros. Esses resíduos devem ser bem fragmentados e bem distribuídos, para que a decomposição ocorra rápida e naturalmente. A cada sete dias deve-se colocar uma camada de 2 cm de serragem sobres os detritos.

 

LEMBRETE:

Nunca coloque líquidos no Biolar.
Sucos, sopas a similares devem ser coados, sendo aproveitado apenas a parte sólida.

 

- Durante a decomposição, dependendo do tipo do material orgânico depositado, surgirão larvas de inseto (bigatos), que poderão ser utilizados como iscas, ou simplesmente como auxiliares do processo de decomposição. Essas larvas não conseguem completar seu cicio reprodutivo nesse meio, integrando-se ao produto final.

- Também são produzidos ácidos orgânicos durante o processo, na forma de chorume, que são absorvidos pelo solo, sendo considerados um excelente tipo de adubo líquido orgânico, Neste caso, o chorume está isento da toxidade provocada por pilhas, materiais ferrosos, embalagens de agrotóxico etc.

- Em residências que abriguem até seis pessoas, havendo disciplina contra desperdícios, o Biodecompositor com capacidade de 200 litros atingirá sua capacidade máxima em aproximadamente sete meses. Nesse período, seria possível a coleta de cerca de 500 litros de material orgânico, resultando, em média, 150 litros ou 115 kg de biossólidos, de acordo com os tipos de resíduos e grau de umidade.

- Para que o hábito da separação e destinação final dos materiais orgânicos não sofra interrupção, é necessária a utilização de dois biodecompositores, pois há um tempo de espera para a retirada do produto final. Esse tempo varia de quatro a cinco meses, quando for utilizado recipiente plástico, e entre 40 e 60 dias, quando o recipiente for metálico. O produto vai sendo retirado aos poucos, com intervalos de quatro a sete dias, à medida que vai perdendo o mau cheiro. A retirada é feita pela parte de cima, até aonde o braço alcançar, e em seguida procede-se o desmonte do equipamento, terminando o esvaziamento pelo fundo. O que fica em baixo da embalagem - espécie de lama orgânica - deve ser incorporado ao material decomposto.

O produto final estará pronto quando apresentar cheiro de "solo de floresta".

CURIOSIDADE:

- Para cada 2 litros de resíduos orgânicos constituídos de chuchu, cenoura e tomates inteiros, são produzidos menos de 0,25 ml de biossólido e 1,5 litro de chorume.

- Para cada 2 litros de resíduos orgânicos constituídos de alimentos fibrosos como cascas de frutas, arroz cozido etc., são produzidos cerca de 1,25 litro de biossólido e 0,5 ml de chorume.  

IMPORTANTE:

- A velocidade de enchimento tem que ser maior que a velocidade da decomposição, para que se use apenas um par de Biodecompositores.

LEMBRETE:

A Velocidade da decomposição (durante o tempo de enchimento o de espera) dependerá do tipo dos materiais orgânicos, da maneira que foram colocados, da temperatura, do tipo da embalagem do Biodecompositor e do local onde está instalado.

 

CONCLUSÕES FINAIS:

- A utilização dessas minifábricas de reciclagem independem da existência de coleta seletiva no município.

- Seu uso acarreta redução da quantidade e do tipo de resíduos que irão para os aterros sanitários, aumentando assim suas vidas úteis.

- Elimina-se o transtorno causado por animais, que danificam as embalagens colocadas nas ruas.

- O produto final é um dos melhores fertilizantes conhecidos e de custo muito baixo. Sua utilização melhora as propriedades físicas, químicas, biológicas e físico-químicas do solo, assim como, garante um melhor desenvolvimento das plantas.

- Se todos adotassem o projeto de reciclagem de resíduos sólidos orgânicos conseguiríamos atingir a disposição final, com a qual completaríamos o cicio, ou seja, tudo o que retiramos do solo, voltaria um dia, em parte, para ele na forma de adubo.

- O adubo composto orgânico pode também ser utilizado em vasos, jardins, hortas e na produção de mudas. Neste caso recomenda-se misturar com 50% de terra argilosa.

SERIA UMA UTOPIA ECOLÓGICA?

 Acreditamos que não, pois o Biodecompositor apresenta-se como uma solução ecologicamente correta. Basta ter consciência, querer e, principalmente, ter paciência.

Como toda empresa é responsável pelo retorno dos resíduos que seus produtos geram, devendo reciclá-los, da mesma maneira somos responsáveis pelos resíduos que geramos. Logo...

Célio Luís Franco de Almeida o Antônio Barbosa Pereira são engenheiros agrônomos, membros fundadores da Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Mogi-Guaçu e autores do Projeto Biodecompositor Doméstico-BIOLAR